Qual a diferença entre um mago e um louco?
A crença no suprassensível como realidade tangível, nas capacidades de se alterar o mundo com forças sobrenaturais, o pensamento místico (ou mítico) que envolve a fé parece mais compatível com uma estrutura delirante, correto? Freud (1996) se debruça sobre o assunto e nos aponta um norte: toda doutrina religiosa é uma ilusão.
Para o psicanalista, é preciso diferenciar erros, ilusões e delírios. O primeiro se baseia em uma presunção equivocada da realidade, enquanto o último está em conflito com a mesma. Ilusões derivam de desejos, e a realização de tal desejo é que fundamenta a crença, trazendo alívio psíquico, por isso a sua relação com a realidade é desprezada, uma vez que não carece de verificação (idem).
A maior parte da humanidade tem algum tipo de fé, ainda que não seja organizada sobre algum dogma específico. De acordo com a pesquisa da GALLUP INTERNATIONAL (2025), apesar de 30% da população mundial não se considerar religiosa, apenas 10% são ateus convictos (números arredondados pela própria entidade de pesquisa para divulgação dos dados). Isto seria o mesmo que dizer que 90% da humanidade precisa se iludir para aliviar a tensão psíquica causada pelas mazelas de existir? É possível encontrar uma proposta diferente através de um contemporâneo de Freud, que vai nos trazer o contraponto semântico da palavra ilusão, presente no termo lúdico.
Para Johan Huizinga (2000), todo ritual religioso tem uma premissa lúdica, ou seja, é uma representação, uma forma de se jogar com o divino, apostando aquilo que se deseja obter em troca da adoração. Enquanto Freud (1996) aposta na religião como forma de responder ao trauma de desamparo do ser humano e ao nosso desejo por uma figura de amor e benevolência, culminando em uma ilusão que despreza a realidade para nos acalentar, Huizinga (2000) nos aponta uma imitação da realidade em um campo imaginário, cujas regras são estabelecidas entre aqueles que acordam em sua criação, como um círculo mágico, que se consiste apenas no momento do rito e dos assuntos pertinentes a ele. Aqueles que são iniciados em algum tipo de culto têm um vínculo entre si como os participantes de um jogo, e os não iniciados estão excluídos da “brincadeira”, por isso não partilham de sua realidade particular, e esta realidade tampouco se estende para a vida como um todo, pois está circunscrita ao momento de jogar e às regras - ou dogmas - estabelecidos tacitamente entre os participantes (idem).
A partir daqui, acho necessário entendermos a origem das religiões, ou seja, o ocultismo, uma prática empírica que busca dar uma explicação aos fenômenos do mundo alternativa à ciência, mas que seja aplicável internamente a uma cultura e sociedade (KAPFERER, 2022). O que vai diferenciar o pensamento mítico do científico é uma associação equivocada de ideias, uma deturpação das relações causais baseada na crença (TOTTI, 2022). A caracterização da atividade mágica, por fim, é uma ação contínua e intencional que é performada por um especialista (KAPFERER, 2022).
A necessidade de um especialista para realizar o feito mágico retoma o processo de iniciação. Todas as práticas ocultas, inclusive as religiões, pressupõem um percurso de introdução aos seus mistérios, no qual o sujeito se apropria aos poucos do conhecimento e se estabelece como membro desse grupo. É graças a este processo de coesão social que as práticas ocultas se tornam importantes para o ser humano, pois a formação de grupos é essencial à nossa vida e à constituição de nossa identidade enquanto indivíduos (LANE, 2002). No entanto, como expõe Dubar (2006), as instituições religiosas têm sido privatizadas, levando a uma forma mais individual da doutrina, ao passo que instituições mais seculares também seriam favoráveis à privacidade dos fiéis quanto às suas práticas. Deste modo, o sujeito é responsável por construir a si mesmo a partir de suas capacidades de abstração e intelecto, não pelos ensinamentos ocultos ou pela atividade ritualística de um grupo coeso, o que pode gerar fragmentações sociais.
Ao retomar a discussão anterior, temos que o ponto de divergência entre as duas teses está no fato da ilusão desprezar a realidade (FREUD, 1996), ou ser uma suspensão temporária da mesma, na qual subjaz a consciência de que aquilo não seja real (HUIZINGA, 2000). Mas, a partir do momento em que se dissolve o processo de iniciação e a doutrina pode ser privatizada e personalizada, não há uma separação clara entre o momento da vida e do rito, e a realidade entra em conflito com a fantasia (ou ilusão), o que categoriza um delírio (FREUD, 1996).
Lacan (1985) estabelece as ordens analíticas como simbólico, imaginário e real, e Dubar (2006) muito bem define a religião como base para a crise de identidade simbólica, basta somar os dois aspectos para entender que se trata de um problema de linguagem. Por seu caráter lúdico, a religião não deveria ser desacreditada pela ciência fria e objetiva, outrossim apenas ateus seriam capazes de crer no pensamento científico, mas isso não se aplica a indivíduos delirantes, que podemos chamar de fanáticos. Não é correto dizer que os fanáticos religiosos desenvolveram algum tipo de psicose, mas o nó-borromeu foi desestabilizado pela angústia gerada pela realidade (ciência) em oposição ao simbólico (religião) que não foi bem assimilado pela falta de repertório. Assim, a religião deixa de ser uma ferramenta de elaboração do recalque por meio de projeções e introjeções (LAMBEK, 2002) para se tornar um sintoma.
Aqui eu considero se dever - presumindo a boa fé de quem fala - à falta de letramento, que é a capacidade de se apropriar de textos, decodificar significados e instrumentalizar as palavras em sua função social (BATISTA, 2006), ainda que não sejam pessoas alfabetizadas, pois se baseia na capacidade de fazer inferências e perceber informações subentendidas, um conhecimento que antecede a capacidade de decodificação do texto escrito (VAL, 2006). É notória a redução na capacidade de interpretação de texto da população como um todo, de acordo com o PISA de 2022 (OCDE, 2023), mais da metade dos aplicantes obtiveram nota dois ou menos em leitura, que indica alta literalidade.
Por fim, os processos sociais contemporâneos que visam a pulverização dos sujeitos, cada vez menos integrados e mais individualizados, passam a se valer também de sua capacidade individual de construção de subjetividade. Em um mundo incapaz de oferecer igualdade de oportunidades, estamos produzindo indivíduos altamente literais, que atribuem poder às palavras elas mesmas. Os sujeitos ensimesmados que são incapazes de produzir metáforas se tornam fanáticos circunscritos pela crença que assumiram como realidade, em um tipo de autismo pós-moderno: o significante é o significado. E, uma vez que todos estão loucos, os magos são aqueles que conseguem atribuir um poder não essencial às palavras, através da intenção. Vivemos em um mundo onde a interpretação de texto é o sortilégio dos iniciados.
𝐑𝐄𝐅𝐄𝐑Ê𝐍𝐂𝐈𝐀𝐒
BATISTA, Antônio Augusto Gomes. Alfabetização, leitura e escrita. In: CARVALHO, Maria Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena. (orgs.). Práticas de leitura e escrita. Brasília: Ministério da educação, 2006.
DUBAR, Claude. A crise das identidades: A interpretação de uma mutação. Portugal: Edições Afrontamento, 2006.
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In: Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XXI, p. 15-64. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
GALLUP INTERNATIONAL. Two Decades of Change: Global Religiosity Declines While Atheism Rises. 24 de julho de 2025. Disponível em: <https://www.gallup-international.com/.../two-decades-of...>, acesso em 28 de julho de 2025.
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. 4. ed. reimp. São Paulo: Editora Perspectiva SA, 2000.
KAPFERER, Bruce. Outside all reason: Magic, sorcery and epistemology in anthropology. In: ______ (ed). Beyond rationalism: Rethinking magic, witchcraft and sorcery. New York, Oxford: Berghahn Books, 2002, p. 1-30.
LACAN, Jacques. O seminário 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
LAMBEK, Michael. Fantasy in practice: Projection and introjection, or the witch and the spirit-medium. In: KAPFERER, Bruce (ed). Beyond rationalism: Rethinking magic, witchcraft and sorcery. New York, Oxford: Berghahn Books, 2002, p. 198-214.
LANE, Sílvia T. Maurer. O que é psicologia social. 22. ed. 4. reimp. São Paulo: Brasiliense, 2002.
OCDE. PISA 2022 Results. 5 de dezembro de 2023. Disponível em: <https://www.oecd.org/.../pisa-2022-results-volume-i...>, acesso em 28 de julho de 2025.
TOTTI, Luis Augusto Schmidt. A magia e suas leis: Práticas mágicas no campo da antiguidade romana à luz de um tratado agronômico do século V D. C. Revista Olho D’Água, São José do Rio Preto, v. 14, n. 1, jan.-jun. 2022. Disponível em: <http://www.olhodagua.ibilce.unesp.br/.../art.../view/935/769>, acesso em 28 de julho de 2025.
VAL, Maria da Graça Costa. O que é ser alfabetizado e letrado? In: CARVALHO, Maria Angélica Freire de; MENDONÇA, Rosa Helena. (orgs.). Práticas de leitura e escrita. Brasília: Ministério da educação, 2006. See less
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